Flexibilidade do ensino a distância permite conciliar maternidade, trabalho e formação, mesmo após anos de pausa
A rotina fragmentada entre trabalho, cuidados com os filhos e tarefas domésticas tem levado um número crescente de mães brasileiras a retomar os estudos, muitas vezes anos depois de interromper a formação. Entre intervalos curtos, noites cansadas e fins de semana apertados, voltar a estudar deixa de ser uma escolha simples e passa a exigir reorganização completa da rotina, disciplina e, muitas vezes, renúncia.
Dados mais recentes do Censo da Educação Superior, do Inep, mostram que o ensino a distância já representa quase metade das matrículas no país e segue em expansão, com avanço puxado principalmente por estudantes adultos. Entre eles, mulheres com filhos aparecem como um dos grupos que mais crescem.
O desafio da dupla jornada: quando a maternidade pausa os sonhos
Tiago Zanolla, professor com mais de 15 anos de atuação na educação e fundador da UFEM Educacional, observa esse movimento de forma direta na base de alunos conectados à edtech. “A maternidade ainda interrompe a trajetória educacional de muitas mulheres, mas o digital criou uma possibilidade concreta de retomada. Hoje, a gente vê mães que reorganizam a rotina para estudar em pequenos intervalos, o que antes era inviável no modelo tradicional”, afirma.
Segundo o IBGE, mulheres ainda dedicam quase o dobro do tempo aos cuidados domésticos e familiares em comparação aos homens, o que ajuda a explicar a dificuldade histórica de continuidade nos estudos. Na prática, isso significa menos tempo disponível, mais sobrecarga e, muitas vezes, a ausência de rede de apoio, o que torna o retorno à educação um desafio diário. “O que mudou não foi só o acesso, mas o formato. O estudo deixou de depender de presença física e passou a se adaptar à rotina do aluno”, diz o especialista.
Flexibilidade digital como ponte para a formação superior
A trajetória de Mara Silva, de 38 anos, ilustra esse cenário, ela interrompeu os estudos ainda no ensino médio ao engravidar aos 19 anos e só conseguiu concluir anos depois. “Hoje, com o ensino a distância, consigo estudar no meu tempo. Às vezes meia hora por dia, às vezes mais no fim de semana. Isso fez toda a diferença”, relata. A flexibilidade também reduziu custos. “Não precisar me deslocar facilitou muito. Consigo estudar em casa e manter a rotina”, diz.
Casos como o de Mara se repetem em diferentes faixas etárias. Ivanir Aparecida Machado, de 54 anos, ficou mais de duas décadas afastada dos estudos após a maternidade. “Fiquei mais de 20 anos sem estudar, mas decidi voltar porque o sonho fala mais alto”, afirma. A retomada, segundo ela, não vem sem obstáculos. “É bem desafiador, fiquei muito tempo sem estudar, mas estou muito feliz de ter voltado.”
A busca por autonomia financeira e estabilidade profissional aparece como um dos principais motivadores para esse retorno. A exigência de diploma para cargos de nível superior e concursos públicos também pesa nessa decisão. “A educação formal ainda é um filtro importante no mercado. Muitas dessas mulheres já têm experiência, mas esbarram na falta de certificação”, explica Zanolla.
O ensino a distância tem funcionado como ponte entre essas duas realidades. Julia Russo, de 36 anos, relata que a modalidade foi determinante para retomar o projeto de formação. “O EAD me deu a possibilidade real de conquistar um diploma, algo que antes era inviável pela distância e a rotina”, afirma.
Na prática, a flexibilidade se traduz em autonomia. “Consigo estudar no horário que encaixa na minha rotina com trabalho, filho e casa. Quando tenho um tempo, já aproveito para adiantar uma matéria”, diz Julia.
Para ela, o impacto vai além da formação. “O diploma traz autonomia e mais segurança profissional. Hoje tenho mais embasamento para o meu trabalho”.

Além da carreira: o impacto da educação na vida das mães
Apesar do avanço, o caminho está longe de ser simples. A conciliação entre estudo, trabalho e maternidade ainda exige disciplina, organização e, muitas vezes, renúncia de momentos de descanso. A sensação de culpa por dividir o tempo entre tantas responsabilidades também aparece nesse processo. “Não é romantizado. É difícil, exige disciplina e organização. Mas o retorno pessoal e profissional compensa”, afirma o educador.
Na prática, modelos educacionais baseados em tecnologia e parcerias com instituições reconhecidas pelo MEC têm ampliado o acesso. A UFEM, por exemplo, atua como um hub que conecta alunos a cursos de diferentes níveis na modalidade digital, reduzindo barreiras de entrada e burocracia. A proposta segue uma tendência mais ampla do setor, que busca atender um público adulto e com demandas específicas de tempo.
A tendência é que esse movimento se intensifique nos próximos anos. O próprio Ministério da Educação aponta crescimento contínuo do EAD no Brasil, impulsionado por mudanças no perfil do estudante. “Existe uma demanda reprimida muito grande. São pessoas que interromperam os estudos e agora encontram uma alternativa viável para voltar”, afirma Zanolla.
Para muitas dessas mães, o retorno à educação vai além da carreira. É também sobre dar exemplo para os filhos e resgatar um projeto pessoal que ficou interrompido por anos. Ao mesmo tempo, revela uma transformação estrutural no acesso ao ensino no país, em que a flexibilidade passa a ser um fator central para a inclusão educacional e para que histórias como essas aconteçam.
As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e podem não necessariamente expressam a opinião deste portal.
É expressamente proibido cópia, reprodução parcial, reprografia, fotocópia ou qualquer forma de extração de informações do site EGOBrazil sem prévia autorização por escrito, mesmo citando a fonte. Cabível de processo jurídico por cópia e uso indevido, esse conteúdo pode conter IA.
Fique por dentro!
Para ficar por dentro de tudo sobre o universo dos famosos e do entretenimento siga o EGOBrazil no Instagram.



